Quase todo condomínio recebeu, na entrega da obra, um documento chamado manual de uso, operação e manutenção. Poucos sabem onde ele está, e menos ainda o utilizam. É uma perda concreta: esse manual é a fonte primária das periodicidades de manutenção da edificação.
O que é o manual da edificação
A ABNT NBR 14037 orienta a elaboração do manual de uso, operação e manutenção das edificações. Ele é entregue pelo construtor ou incorporador e descreve como o edifício deve ser usado, operado e mantido, incluindo sistemas, equipamentos, garantias e cuidados.
Enquanto a NBR 5674 diz como gerir a manutenção, a NBR 14037 diz o que o edifício específico exige. Uma é o método, a outra é o conteúdo.
O manual não é papel de entrega. É a base do seu plano.
O que o manual deve conter
- descrição dos sistemas e equipamentos instalados;
- recomendações de uso e operação, inclusive o que não deve ser feito;
- programa de manutenção preventiva com periodicidades sugeridas;
- prazos de garantia e condições de perda de garantia;
- documentação técnica: projetos, memoriais, fornecedores e fabricantes.
Perder garantia por falta de manutenção documentada é um dos prejuízos mais silenciosos da gestão condominial, e nasce exatamente da falta de leitura desse documento.
E se o condomínio não tem o manual
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Em prédios antigos ou com documentação perdida, o caminho é:
- solicitar cópia à construtora ou incorporadora, quando ainda existir;
- reunir manuais dos fabricantes dos equipamentos instalados (elevador, bombas, gerador, portões, incêndio);
- contratar profissional habilitado para levantamento técnico e elaboração do programa de manutenção;
- consolidar tudo no arquivo oficial do condomínio, junto às atas e contratos.
Na prática, o condomínio reconstrói o manual a partir dos sistemas reais que possui. Não é o cenário ideal, mas é melhor do que operar sem referência de periodicidade.
Como usar o manual no dia a dia
O manual só gera valor quando vira calendário. O uso correto é extrair dele cada atividade recorrente, transformar em item do plano de manutenção, atribuir responsável e prazo, e registrar a execução com evidência.
Também vale consultá-lo antes de reformas, trocas de equipamento e contratações: ele indica limites de uso e condições de garantia que costumam ser ignorados nas decisões rápidas.
Atualização e guarda do documento
O manual acompanha a vida do edifício. Reformas, substituições de equipamento e alterações de sistemas devem gerar atualização ou anexos. Guardá-lo junto aos documentos do condomínio, em local acessível à próxima gestão, é parte da continuidade administrativa.
Conclusão
O manual de uso, operação e manutenção é o documento que responde "com que frequência isso precisa ser feito neste prédio". Quem o utiliza monta um plano ancorado em referência técnica, e não em suposição.
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A manutenção prevista no manual
A parte mais operacional do manual de uso, operação e manutenção é justamente a que menos costuma ser lida: o conjunto de orientações sobre o que cada sistema da edificação exige e com que periodicidade.
Esse conteúdo funciona como ponto de partida do plano de manutenção porque traz informações específicas daquela edificação, e não recomendações genéricas. Em geral, ele reúne:
- a descrição dos sistemas e dos materiais empregados na construção;
- as atividades de manutenção recomendadas para cada sistema, com a periodicidade sugerida;
- a indicação de quais atividades exigem profissional habilitado e quais podem ser conduzidas pela equipe própria;
- orientações de uso e de operação, incluindo o que não deve ser feito;
- informações dos fornecedores e fabricantes dos equipamentos instalados;
- as condições de garantia informadas pelo construtor.
A ABNT NBR 5674, que trata da gestão da manutenção, é a norma que organiza o que fazer com essas informações: transformá-las em programa, executar e registrar. As duas se complementam, o manual descreve a edificação, a gestão dá ritmo a ela. O caminho está em plano de manutenção condominial.
Registros que acompanham o manual
O manual não é um documento estático a ser arquivado uma vez. Ele ganha valor quando vira base de um registro contínuo, em que cada atividade prevista tem sua execução anotada.
Na prática, o par manual e registro reúne:
- a atividade prevista e sua periodicidade de referência;
- a data de cada execução realizada;
- quem executou e, quando aplicável, o responsável técnico;
- o que foi verificado ou substituído;
- as evidências e os documentos gerados;
- eventuais desvios em relação ao previsto, com justificativa.
É esse conjunto que compõe o histórico técnico da edificação, detalhado em histórico de manutenção do condomínio.
Relação entre manutenção, registros e garantias
Este é o ponto que mais gera confusão, e por isso merece precisão. Construtoras e fabricantes informam prazos e condições de garantia, e essas condições normalmente incluem o uso adequado do bem e a realização da manutenção recomendada. É por isso que a manutenção aparece ligada ao tema.
O que não é correto afirmar é que a ausência de um registro implica perda automática de garantia. A análise de uma reclamação em garantia depende de fatores concretos: a natureza do problema, a causa identificada, o prazo em que ele se manifestou, o que estava previsto no contrato e no manual, e a legislação aplicável, incluindo o Código de Defesa do Consumidor. Existem situações em que o problema decorre de vício construtivo independentemente da rotina de manutenção do condomínio.
O papel real dos registros é probatório, não determinante: eles permitem ao condomínio demonstrar que as atividades recomendadas foram realizadas, com data e responsável. Isso é útil em qualquer discussão sobre causa, mas não decide sozinho o resultado. Situações concretas de garantia pedem análise técnica e orientação jurídica específica.
Do ponto de vista de gestão, a recomendação prática é objetiva: manter o manual acessível, registrar as atividades recomendadas conforme executadas e controlar os prazos de garantia informados junto ao controle de documentos e vencimentos.

Heitor Izaias de Oliveira é Engenheiro Civil e autor técnico do Guia do Síndico e do Condomínio. Atua na análise de edificações e em temas relacionados à manutenção predial, organização técnica de ativos, histórico de intervenções e boas práticas de gestão condominial. Seus conteúdos têm como objetivo traduzir conceitos técnicos para uma linguagem prática e acessível a síndicos, administradoras e gestores.
Ver perfil do autor →Perguntas frequentes
Quem entrega o manual de uso, operação e manutenção?
O construtor ou incorporador entrega o manual ao condomínio e aos proprietários na conclusão da obra, conforme orienta a ABNT NBR 14037.
O manual da edificação substitui o plano de manutenção?
Não. O manual traz as recomendações e periodicidades do edifício. O plano de manutenção é a organização dessas atividades em calendário, com responsáveis, execução e registro.
O que fazer se o manual foi perdido?
Solicite cópia à construtora, reúna os manuais dos fabricantes dos equipamentos e contrate profissional habilitado para levantamento técnico. Depois, consolide tudo no arquivo oficial do condomínio.
Ignorar o manual pode afetar garantias?
Pode. Muitas garantias de sistemas e equipamentos dependem de manutenção realizada na periodicidade indicada e comprovada por registro. Sem evidência, a discussão com fornecedores fica frágil.
Onde o manual deve ficar guardado?
No arquivo oficial do condomínio, digitalizado e acessível à administração, ao conselho e às gestões seguintes, junto de projetos, laudos e contratos.
O que o manual da edificação traz sobre manutenção?
A descrição dos sistemas e materiais empregados, as atividades de manutenção recomendadas com periodicidade sugerida, a indicação do que exige profissional habilitado, orientações de uso e operação, dados dos fornecedores e as condições de garantia informadas pelo construtor.
Não fazer a manutenção prevista faz o condomínio perder a garantia?
Não automaticamente. As condições de garantia costumam incluir uso adequado e manutenção recomendada, mas a análise de cada reclamação depende da natureza do problema, da causa identificada, do prazo, do que consta no contrato e no manual e da legislação aplicável. Há casos em que o problema decorre de vício construtivo independentemente da rotina de manutenção.
Qual o papel dos registros de manutenção em uma discussão de garantia?
É probatório, não determinante. Os registros permitem demonstrar que as atividades recomendadas foram realizadas, com data e responsável, o que é útil em qualquer discussão sobre causa, mas não decide sozinho o resultado. Casos concretos pedem análise técnica e orientação jurídica.
Qual a diferença entre a NBR 14037 e a NBR 5674?
A NBR 14037 trata do manual de uso, operação e manutenção, que descreve a edificação e as atividades recomendadas. A NBR 5674 trata da gestão da manutenção, ou seja, de transformar essas informações em programa, execução e registro.
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